IA torna-se importante aliada no mundo das franquias
IA pode apoiar produtividade, gestão de estoque e análise de riscos nas franquias, mas a adoção exige dados organizados, equipes preparadas e avaliação dos custos.
Publicado em 03/11/2026 às 21:20

A inteligência artificial começa a ocupar um papel estratégico nas franquias brasileiras. Mais do que uma aposta em inovação, a tecnologia pode apoiar o controle da operação, a análise de dados e a identificação de riscos financeiros — pontos que ganham relevância em um cenário de pressão sobre custos, mudanças tributárias e alterações na jornada de trabalho.
Adoção avança, mas ainda é desigual
Levantamento da Associação Brasileira de Franchising (ABF) citado na reportagem mostra diferentes estágios de uso da IA entre as franqueadoras: 37% estão testando soluções ou desenvolvendo projetos-piloto; 26% usam a tecnologia de forma estruturada; e 22% registram aplicações não estruturadas, adotadas por iniciativa das equipes. Outros 14% ainda não utilizam ferramentas de IA.
As aplicações mais mencionadas estão ligadas a marketing (83%), produção de materiais internos (62%) e atendimento ao cliente (55%). Entre os benefícios percebidos aparecem o aumento da produtividade, apontado por 73% dos entrevistados, e a automação de tarefas repetitivas, citada por 63%. Também foram mencionadas melhorias no atendimento (51%), apoio à tomada de decisões (41%) e personalização da comunicação (40%).
Os dados indicam que a adoção não se limita a projetos sofisticados. Automatizar tarefas ou organizar informações também pode ser um ponto de partida. Para o candidato a franqueado, vale investigar quais recursos a rede já oferece e se eles estão disponíveis para as unidades — não apenas na estrutura da franqueadora.
Dados para antecipar problemas
O especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja destaca a produtividade como um dos benefícios que podem aparecer mais rapidamente. Com dados organizados, o empresário pode acompanhar indicadores, localizar gargalos e entender melhor despesas e resultados da unidade. Em períodos de margens pressionadas, essa leitura ajuda a orientar decisões, mas não substitui a avaliação do responsável pelo negócio.
A análise preditiva é outra possibilidade. Ao monitorar mudanças nas margens, pressões de fornecedores e alterações no fluxo comercial, uma ferramenta pode ajudar a perceber sinais de deterioração financeira antes que se convertam em prejuízos. A análise também pode combinar dados internos — como registros de um sistema de relacionamento com clientes — a informações externas, incluindo indicadores econômicos, características regionais e comportamento nas redes sociais.
Na gestão cotidiana, painéis de controle e ferramentas de inteligência de negócios podem apoiar decisões sobre estoque, compras e dimensionamento da operação. O objetivo prático é reduzir o risco de adquirir mais produtos do que a demanda comporta, manter itens parados ou ser surpreendido por uma queda nas vendas. A tecnologia também pode auxiliar na identificação de desperdícios e na organização de processos, deixando a equipe mais disponível para atividades que dependem de interação humana.
Igreja cita ferramentas como Cloud Code e Lovable como recursos que podem viabilizar pequenas aplicações voltadas a necessidades específicas. Ainda assim, a existência de uma ferramenta não garante que ela resolva um problema real: é preciso identificar a necessidade, testar a solução e acompanhar seu uso.
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Pessoas, estrutura e retorno
A cientista de dados Vivian Garcia, especialista em expansão de franquias da VG Consultoria, ressalta que a implantação depende da preparação das equipes e de mudanças na cultura organizacional. Sem profissionais capazes de operar os sistemas e reconhecer oportunidades de aplicação, o investimento em tecnologia pode não se sustentar. Para o franqueado, isso torna importante perguntar que tipo de capacitação e suporte a franqueadora oferece.
Artur Grynbaum, vice-presidente do Conselho do Grupo Boticário, aponta outro requisito: uma base de dados e uma arquitetura tecnológica que integrem informações. Segundo ele, a IA é aplicada no grupo em processos como previsão de vendas, gestão de crédito, pesquisa de pontos comerciais, desenvolvimento de produtos e monitoramento de estoque. Também há recursos voltados ao atendimento em lojas e à compreensão do perfil de consumidores no comércio eletrônico.
O retorno econômico precisa ser avaliado de forma completa. Uma eventual redução de custos com pessoal, por exemplo, não deve ser considerada isoladamente: ferramentas, assinaturas e consumo de tokens também geram despesas. Além disso, franqueados de uma mesma rede podem ter níveis diferentes de maturidade digital. Uma implementação adequada deve considerar essas diferenças e envolver os operadores na identificação de problemas e na escolha entre desenvolver soluções ou contratar recursos disponíveis no mercado.
Para quem avalia uma franquia, a IA pode ser um critério de análise, mas não uma garantia de rentabilidade. Convém entender quais dados serão utilizados, quem terá acesso a eles, quais custos ficam a cargo da unidade e como a rede mede os resultados. A tecnologia tende a ser mais útil quando responde a uma necessidade operacional clara e vem acompanhada de orientação e capacitação.
Reportagem publicada pelo Correio Braziliense.